sábado, 7 de junho de 2008

Entrevista com Jairzinho

Por Marcelo Penido (Editoria de Esportes)

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O ano de 1968 foi um período de turbulências na área político-social. Com a promulgação do AI-5 e o enrijecimento das práticas de repressão e censura, boa parte da população estava descontente. Não era o caso dos botafoguenses.

A campanha do Glorioso foi irretocável com a conquista de cinco títulos: a Taça Guanabara, o Campeonato Estadual, o IV Torneio Hexagonal do México, o Torneio de Caracas e a Taça Brasil, campeonato nacional da época. Mal sabia o torcedor alvinegro que passaria os próximos 21 anos sem erguer uma taça sequer.

Ícone do vitorioso time de 68, Jair Ventura Filho, o Jairzinho, foi responsável direto nas vitórias do Botafogo, time pelo qual atuou 15 anos e marcou quase 200 gols. Quando chegou ao clube, em 1961, ainda atuava na categoria juvenil, mas já se destacava pelas velozes arrancadas e pelos gols marcados. Não foi à toa que o jogador foi convocado a disputar o Campeonato Pan-americano de 1963 pela Seleção Brasileira, conquistando seu primeiro título internacional.

No mesmo ano foi promovido ao time principal e recebeu a difícil tarefa de substituir o craque Quarentinha, maior artilheiro da história do Botafogo, mas logo caiu nas graças da torcida que cada vez mais contava com seus gols. Três anos mais tarde, Jairzinho foi um dos artilheiros do alvinegro no bi-campeonato carioca, marcando nove gols na competição que foi conquistada ao derrotar a equipe do Vasco da Gama por 4x0.

Em entrevista exclusiva, Jairzinho falou sobre o desempenho do Botafogo no ano de 1968, política e carreira. Segue a transcrição da mesma.

Marcelo Penido: Bom dia Jair, antes de ser considerado o Furacão da Copa de 1970, no México, você já se destacava no time do Botafogo, principalmente em 1968, conquistando entre outros títulos o bi campeonato carioca e a Taça Brasil. O que você ressalta sobre esse ano de tantas glórias para os alvinegros?

Jairzinho: Bom dia. O ano de 68 foi muito especial na minha carreira, como você mesmo disse o Botafogo foi bi campeão carioca e campeão da Taça Brasil. Mas o que eu ressalto sobre esse ano é o desfecho da Taça Guanabara. Na última rodada do campeonato, nós empatamos com o Flamengo em 0x0, só que eles tinham um jogo a menos e enfrentariam o Bonsucesso. Nós estávamos praticamente fora da disputa do título, já que a equipe do Flamengo era muito superiora a do Bonsucesso. Fomos convidados a jogar um amistoso contra o Vila Nova, em Goiânia, no mesmo dia do jogo deles. Chegando no estádio do Vila Nova, me lembro bem, o Zagallo, que era o técnico e o Admildo Chirol, que era o preparador físico, levaram um rádio e disseram que ainda tinham esperanças de um resultado negativo do Flamengo. O nosso jogo começou antes do jogo deles, estávamos bastante tristes, sem aquela intensidade de quem está disputando um título e o primeiro tempo acabou 0x0. No vestiário ouvimos o gol do Bonsucesso, o Zagallo mal fez a preleção de avaliação do primeiro tempo e nós voltamos pro jogo com outro ânimo. O Vila Nova chegou a fazer um gol, mas quando tivemos a notícia do segundo gol do Bonsucesso, você imagina, recebemos uma injeção de busca do nosso objetivo, viramos a partida pra 3x1, voltamos para decidir a final com o Flamengo e conquistamos um resultado favorável, 4x1.

Marcelo Penido: Inclusive no dia nove de maio, em sua coluna no jornal O Globo, o jornalista Renato Maurício Prado afirmou que em 1968, o Flamengo sofreu uma das maiores vergonhas de sua história, pois já se considerava campeão da Taça Guanabara, com um jogo de antecedência e ao perder por 2x0 para o Bonsucesso, permitiu que o Botafogo empatasse o número de pontos e realizasse um jogo extra para definir o campeão da competição. O Flamengo já havia dado volta olímpica e acabou derrotado por 4x1. Fale um pouco sobre esse fato.

Jairzinho: É verdade, a famosa volta olímpica de ré (risos). Teve até um jogador do Flamengo, o Onça, que quando terminou o jogo com o Botafogo distribuiu todo o material dele, camisa, calção, chuteira, ficou só de sunga. No dia seguinte, quando nós vimos no jornal, as fotografias, ficamos chateados, até pelo comportamento inadequado do profissional, mas eles não esperavam ser derrotados pelo Bonsucesso e evidentemente esse fato tirou o equilíbrio emocional da equipe deles. Quando nós entramos em campo, para realizar o jogo extra, sentimos que a maioria dos jogadores do Flamengo estava cabisbaixa, sem ânimo e nós ganhamos o jogo com muita facilidade. Fizemos quatro, mas poderíamos ter feito até mais gols.

Marcelo Penido: Durante as eliminatórias para a Copa de 70, a seleção brasileira era comandada por (João) Saldanha. Segundo consta, poucos meses antes do início da competição, o técnico foi demitido do cargo por se recusar a cumprir exigência do então presidente General Emilio Médici, de convocar Dario, atacante do Atlético Mineiro. A partir de 1968, com a criação do AI-5, todos os setores da sociedade sofreram algum tipo de repressão ou sanção. No futebol, foi diferente ou a ditadura impunha regras aos jogadores e clubes?

Jairzinho: Bom, o que eu tenho de conhecimento em relação à saída do Saldanha foi que logo que começamos a preparação para a Copa, ele reuniu a imprensa, como é de praxe, para passar o planejamento da comissão. No transcurso da entrevista um jornalista fez uma pergunta sobre o estado da grama do Maracanã e me pareceu que ele não aceitou bem. Eu soube que quando terminou a entrevista, o Saldanha entrou em atrito verbal e fisicamente com esse jornalista e daí em diante a imprensa começou a buscar nos bastidores as partes negativas dele. Alguns diziam que ele era comunista, outros que ele era um beberrão e etc. Eu lembro até um dia que entrevistaram o Yustrich, treinador do Flamengo na época, e ele chamou o Saldanha de tudo que podia chamar de ruim. No mesmo dia o Saldanha foi na concentração do Flamengo tirar diferenças com o Yustrich, por sorte ele não estava lá. Pois bem, cada dia saía uma noticia negativa sobre o Saldanha, se era verdade ou não eu não posso confirmar. Até que surgiu essa noticia nos jornais: “Médici escala Dario”. Logo após a manchete vinha o depoimento do Médici dizendo que pra ele o titular da seleção brasileira era o Dario e tal, que ele gostava muito do futebol do dele e essa coisa toda. Foi quando a imprensa foi perguntar ao Saldanha o que ele achava do Médici indicar o Dario para a seleção. O Saldanha respondeu que ele como primeiro homem do país tinha todo o direito de escalar quem quisesse para a seleção, como o Saldanha também tinha toda a liberdade de escalar um ministro para compor o corpo administrativo do Brasil. E depois dessa declaração do Saldanha, nós recebemos o comunicado da CBD (Confederação Brasileira de Desportos) que ele não era mais o treinador da Seleção Brasileira.

Marcelo Penido: Foi substituído pelo Zagallo...

Jairzinho: Isso.

Marcelo Penido: Certo, mas o dia-a-dia dos jogadores e dos clubes foi alterado de alguma maneira?

Jairzinho: Olha, eu não posso dizer nada contra a ditadura porque ela não interferiu na minha carreira e também lá dentro do clube, no Botafogo de Futebol e Regatas, aonde eu prestei serviço ao longo dos anos, eu não percebi nenhum tipo de interferência.

Marcelo Penido: Jair qual foi o momento mais marcante da carreira, o que você destaca?

Jairzinho: O objetivo de um jogador de futebol, ou de qualquer outra modalidade esportiva, é adquirir o sucesso e conseguir os títulos máximos. No futebol o título máximo é ser tricampeão do mundo como eu fui. Para mim foi fantástico esse tricampeonato porque eu não só fui tricampeão do mundo como o Brito e eu, fomos eleitos os dois jogadores com melhor preparo físico da competição, eu recebi o titulo de Furacão da Copa pela minha grande performance e sou até hoje dentro da história de campeonato do mundo de seleções o único jogador a fazer gols em todos os jogos, é um acontecimento fantástico que até então ninguém havia alcançado. Muitos fizeram gols, fizeram até mais gols do que eu, mas não fizeram gols em todos os jogos, este é um feito inigualável e eu não tenho nem palavras para expressar. Então foi e é fantástico pra mim, me sinto mais do que gratificado e compensado por todos os meus sacrifícios, todas as operações que desenvolvi antes de chegar a 70 alcançando esse titulo inédito para a historia do Brasil e para a minha obra pessoal.

Marcelo Penido: Para nós terminarmos a entrevista, fale um pouco do trabalho que você vem desenvolvendo desde que parou de atuar como jogador.

Jairzinho: Eu sou treinador profissional, fiz o curso na Escola de Educação Física do Exército, na Urca, no inicio dos anos 80. Em 84 treinei o time de juniores do Botafogo, fui pra Londrina, treinar sua equipe principal e de lá fui para a Arábia Saudita em 87, onde fiquei dois anos. Voltando para o Rio de Janeiro fui campeão invicto levando o São Cristóvão para a primeira divisão do Campeonato Carioca, revelando uma série de jogadores maravilhosos, depois fui pra Grécia, treinar o Kalamata, onde fiz um bom trabalho. Novamente retornei ao Rio, onde treinei o time do Bonsucesso. Fui em seguida para o Gabão, onde realizei durante três anos um trabalho a frente da seleção local. Sempre que eu ficava inativo, sem participação oficial como treinador, me preocupava em melhorar as partes social, esportiva e educacional do Rio e do Brasil. Fiz trabalhos gratuitos em campos, tirando os garotos da rua, da marginalidade, procurando colocar na mente deles que praticando esportes eles teriam uma vida mais agradável. Hoje eu desenvolvo um trabalho no campo do Asas Futebol Clube, no Gardênia Azul, em Jacarepaguá, de segunda a sexta feira, com a garotada da comunidade. Há garotos de 10 a 20 anos e eu procuro evidentemente dar a eles uma expectativa e a esperança de uma vida melhor.

2 comentários:

Vinícius Barros disse...

FOGOOOOOOOOOO

Anônimo disse...

Boa tarde.

BOTAFOGO 2 x 1 GOIÂNIA
Data: 11/09/1968
Local: Pedro Ludovico, Goiânia
Árbitro: Francisco Nogueira de Andrade
Competição: Amistoso
Gols: Valdeir, aos 45’, Paulo Cézar, aos 78’ e Humberto, aos 84’
Botafogo: Wendell, Moreira (Mura), Chiquinho Pastor, Leônidas e Waltencir; Carlos Roberto e Nei Conceição; Zequinha, Humberto, Jairzinho e Paulo Cézar. Técnico: Zagallo
Goiânia: Sorriso, Humberto, Chico, Alexandre e Silvinho; Carlinhos e Josmar; Danilo, Tuíra, Valdeir e Laírson. Técnico: ?
Obs: O Botafogo teve que voltar ao Rio de Janeiro para estrear na Taça de Prata (em 14-09) e decidir a Taça Guanabara (em 18-09), já que o CR Flamengo perdeu p/o Bonsucesso FC
Fontes: Correio da Manhã e O Globo

Saudações Alvinegras,
Jéferson (Jefferson)