terça-feira, 29 de abril de 2008

1968

por Luana Assis

Coincidência? Talvez. Revoltas ideológicas em prol de objetivos similares? Certamente. O fato é que à medida que o tempo passa, mais se evidencia o caráter instigante da realidade vivida em 68 e a sintonia de mentes cujo anseio revolucionário propiciou a formação de novos estereótipos e, conseqüentemente, de uma sociedade mais modernizada. Se analisado a partir de um ponto de vista prático, 1968 parece realmente não ter tido fim, mas sim ter se prolongado indefinidamente, vindo a ser o precursor de muitos dos padrões que hoje temos por aí. Felizmente. Creio que posso assim dizer já que o saldo final foi positivo.

Basicamente, a geração, predominantemente jovem, idealizava uma revolução mais voltada para o caráter político, caracterizando uma reação ao poder de um modo geral. A rejeição a todo e qualquer poder era uma marca, o que teve conseqüências tanto na esquerda quanto na direita. Para eles, por exemplo, o comunismo era naquele momento um poder tão nocivo quanto o poder capitalista. Todavia, esses jovens não tinham estrutura para tomar o poder, tampouco para mantê-lo. Ironicamente, apesar da utópica tentativa de uma revolução política não ter sido possível, toda uma revolução cultural foi iniciada naquele momento e perdura até hoje. Isso aqui no Brasil. Pois em diversos outros locais, concomitantemente com toda essa febre revolucionária daqui, também estouravam rebeliões que reivindicavam desde questões mais irrisórias, como a questão do dormitório misto na França e EUA, até verdadeiras lutas pela liberdade e contra a censura, que foi o caso do Brasil, cujos movimentos costumavam se caracterizar por um componente político muito forte.

O legado de 68 é inegável. Foi uma contestação anárquica a tudo do passado – não restam dúvidas, principalmente no que diz respeito ao autoritarismo generalizado de então – e são indiscutíveis as conquistas gestadas e nascidas nesse período. A liberdade sexual teve vez, tabus começaram a ser destruídos e novas formas comportamentais vieram à tona, resultando em uma sociedade mais independente, com mulheres, negros, homossexuais e minorias em geral mais livres.

Se outrora convivíamos com um voluntarismo e uma arrogância típicos daquela juventude reivindicadora - algo à beira da onipotência - hoje nos resta um conformismo tão alienado que se torna difícil imaginar formas de como solucionar a crise da política brasileira, por exemplo.

Tamanha passividade é provavelmente conseqüência do individualismo presente na sociedade. Não existe mais a consciência do todo. A comunicação não mais se dá por via direta. E a internet aí está, como prova comprobatória. Sendo assim, cabe a mim no máximo o desafio de tentar entender se essa exacerbação do indivíduo seria oriunda da natureza efêmera das relações dos dias de hoje, ou se se aplica o contrário. A dúvida permanece.

Aonde está a grande massa que supostamente interferiria nesse caos estabelecido – ao melhor estilo marxista? – é algo que sinceramente não me arrisco a dizer. No momento, apenas resta me dedicar à agradável tarefa de me imaginar há quatro décadas proclamando os valores pátrios da época. Contudo, ao fazê-lo, é infeliz que me recolho ao meu insignificante e triste papel de pertencente a esse todo permissivo e alienado. E que venham os mensalões.

Um comentário:

Revisor disse...

A generalização é sempre um perigo, na medida em que repete o que já foi dito e não traz detalhes.